sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Pós-modernidade e suas concepções divergentes


Existem divergências quanto o inicio do período pós-moderno. A primeira delas refere-se à data do princípio que marca esta nova era. Alguns pensadores admitem que o preâmbulo gira em torno de 1930, enquanto outros colaboradores advogam que esta se inicia na década de 80, com o grande marco na queda do muro de Berlim. Todavia a maior discordância não está no âmbito das datas, mas na real existência de um período pós-modernista. Ou seja, enquanto uma parte dos estudiosos acredita que após a Segunda Grande Guerra (1945) o mundo jaz no pós-modernismo, outra prole crê que estamos vivendo uma nova fase social da modernidade, iniciada com a renascença e cujo ápice se deu no Iluminismo do século XVIII. Neste tópico dissertar-se-á sobre esta contradição e suas implicações no rumo da história contemporânea.


Para os marxistas, a pós-modernidade não passa da modernidade capitalista disfarçada em seu terceiro momento na vida social. Para estes pensadores, a fase que começou com uma sociedade política e economicamente feudal e capitalista, evoluiu para as revoluções industriais capitalistas e agora está numa fase de desenvolvimento tecnológico capitalista neo-liberal, cujo o resultado é o consumismo exacerbado. Visão bem parecida com a dos filósofos que advogam a inexistência da pós-modernidade, pois não enxergam evolução na modernidade, ou seja, o que a sociedade vivencia é um aperfeiçoamento do modernismo com destaques para o hedonismo, consumismo e egocentrismo.


Os sociólogos em geral afirmam que a modernidade sofreu falência uma vez que a ciência não teve condições de dar todas as respostas das indagações humanas, como por exemplo, de onde vieram. Deste modo o ser humano continua com anseios de descobrir os mistérios transcendentais ou espirituais, na visão dos teólogos.


De acordo com o psicanalista Raymundo de Lima, o “pós-modernismo, em sua origem, significava a perda da historicidade e o fim da grande narrativa”, isto é, a história como conhecida – de maneira linear e peculiar de cada cultura – perdeu o sentido com o surgimento de um novo sistema global, universal e capitalista. Alguns pensadores defendem, inclusive, o fim da história. Para Lima, esta nova fase marca o fim de “uma tradição de mudança e ruptura, bem como o apagamento da fronteira entre alta cultura e da cultura de massa e a prática da apropriação e da citação de obras do passado.” (Op Cit). No modernismo a razão não poderia coadunar com suas experiências pessoais levando o homem a um engessamento de personalidade, pois se depositava a esperança humana única e exclusivamente na racionalidade e, conseqüentemente, na capacidade intelectual do ser humano. Isto ajudou a acelerar o processo de transição cultural que para Gianni Vattino (2001): “a chamada "pós-modernidade" aparece como uma espécie de Renascimento dos ideais banidos e cassados por nossa modernidade racionalizadora. Esta modernidade teria terminado a partir do momento em que não podemos mais falar da história como algo de unitário e quando morre o mito do Progresso. É a emergência desses ideais que seria responsável por toda uma onda de comportamentos e de atitudes irracionais e desencantados em relação à política e pelo crescimento do ceticismo face aos valores fundamentais da modernidade. Estaríamos dando adeus à modernidade, à Razão. Quem acredita ainda que ‘todo real é racional e que todo real é racional’?(Hegel)


Na idade média a Igreja-Estado era a detentora dos poderes político, econômico e cultural e, em nome de um governo teocrático, Deus – representado pelos sacerdotes – era o centro de todas as coisas, isto é, Deus é a explicação para todas as ocorrências cotidianas. Na idade moderna, Igreja e o Estado se separam. A razão explicaria todas as questões do ser humano, desta forma tudo deveria ser interpretado pela ciência. Nesta fase a existência de um ser divino foi descartada de tal forma que Friedrich Wilhelm Nietzsche, influente filósofo alemão do século XIX chegou a declarar a morte de Deus.


Como a razão não pode responder todas as questões do homem, este inquieto ser volta-se para as questões espirituais. Busca-se a presença de um ser maior que possa preencher um vazio existente na raça humana, através de experiências pessoais, empíricas. Dá-se vazão às questões transcendentais, ou seja, é permitido ir além das evidências científicas. O homem passa a olhar para Deus como revelador daquilo que nunca encontraria resposta por si mesmo ou por qualquer outro ser humano. Possibilita-se utilizar a fé como sua ferramenta, sem descartar as conquistas da ciência. Fé e razão passam a se conciliar; andam juntas. Nasce, para alguns pensadores, a Idade Pós-Moderna ou contemporânea.


Nesta nova fase da história, a soberania de Deus, defendida na Idade Média é substituída pelas potencialidades humanas. O homem continua sendo o centro de todas as coisas, pois Deus o criou para dominar o mundo. Um rabino, ao analisar o termo Eu Sou (YHWH) encontrado nos escritos mosaicos, quando da apresentação de Deus a Moises, no deserto; comparando com os nomes atribuídos a Deus no cânon vetero-testamentario, tais como: Senhor dos Exércitos, Deus de Paz, Deus de provisão, Deus Cura; chegou a seguinte conclusão: “Deus é aquilo que precisamos que ele seja”. É baseada neste tipo de visão que o homem pós-moderno, transita entre o profano e o sagrado; entre a razão e a fé; entre o dever e o poder. Tudo em nome do Divino. Ao ser humano é atribuído o poder de decidir o que Deus ‘deve’ ou não fazer. É comum ao homem contemporâneo, principalmente nas seitas pseudo-evangélicas o determinismo e o positivismo tão comum nas filosofias asiáticas. Jargões como ‘eu determino’, ‘eu exijo’, ‘eu expulso’, ‘eu amarro’, ‘eu não aceito’ revelam exatamente o pensamento e o caráter pós-moderno. O ego está cada vez mais aflorado pelo poder atribuído ao homem, com seus aparatos tecnológicos e capacidade econômica. Perdem-se alguns limites e a busca pela sacies dos prazeres aumentam em proporções alarmantes.


Podem-se observar alguns sintomas do sujeito pós-moderno, dentre eles a capacidade de não ter um posicionamento filosófico-político definido, isto é, uma pessoa com sentimento pós-moderno não pertence nem à direita e nem à esquerda na política. O que importa é o bem estar e o prazer pessoal. Outra característica deste indivíduo é a exclusão da dimensão da subjetividade e da privacidade das pessoas. Anula-se a dimensão do privado, tornando ‘tudo’ público, do cotidiano dos ansiosos por fama um reality show até as mais famosas celebridades ‘midiáticas’, como também dos evangélicos e dos carismáticos que se expõem frente as câmeras de uma televisão fascinando todos com suas ideologias. Segundo Lima (op cit): “Os sintomas de obscenidade da era moderna de exploração sexual ou de exploração do trabalho, operavam sempre no oculto, eram marginalizadas aos subterrâneos da vida social. Os dispositivos ideológicos de manutenção das cosias como estavam, eram a opressão social, a repressão psíquica e o trabalho ideológico de recondução da libido para fins de trabalho ou exploração industrial; hoje, na sociedade pós-moderna, operam mecanismos de promoção da visibilidade do que era privado, como se decretasse o fim do segredo ou o fim da intimidade.”


Perdeu-se a noção de intimidade entre os pares. Tudo se tornou público. Os relacionamentos tornaram-se rasos, superficiais e isto afetou também o relacionamento do homem com Deus nesta nova fase da história. O primeiro passou a aceitar o sagrado, mas sem um compromisso com o Criador. A metáfora de pai e filho; noivo e noiva; perdeu o sentido, dando lugar a simples conhecidos que comercializam de tudo: crença em troca de milagres, dízimos em troca de prosperidade financeira e toda forma de negociatas. É o mercantilismo da fé. Tudo é à base de troca. Deus e os homens são como vendedor e clientes prontos para “fecharem mais um grande negócio”.


No pensamento pós-moderno, tudo é comercializável; do trabalho ao sexo. Com uma roupagem palatável, consumam-se de tudo, de modo que a sensação pós-moderna torna-se perceptível. O trabalho compulsivo, muitas vezes é transmitido como lazer e o“ócio criativo, gera o stress, a perversão, a depressão, a obesidade e o tédio” (LIMA, op cit). A perversão e o stress são sintomas da falta de lei, de tempo e de perspectiva de futuro. Zizek afirma que “tudo se tornou demasiadamente próximo, promiscuo, sem limites, deixando-se penetrar por todos os poros e orifícios” (2004). O que importa é que as necessidades sejam supridas por um mercado livre de pudores e desprovido de moral.


A sociedade é movida pela necessidade do espetáculo, pela ânsia do prazer a qualquer custo. Para o pós-moderno vale de tudo e mais, todos se sentem na obrigação de se divertir, de aproveitar a vida e trabalhar muito para se obter bens e reconhecimento social, sem se importar com os limites pessoais. Nas afirmações de um certo pensador, “se a modernidade prometia a felicidade através do progresso da ciência ou de uma revolução, a pós-modernidade promete um nada que pretende ser o solo para tudo.” (opt Cit) A impressão é que todo o vazio do homem só se avoluma diante de tantas incertezas. Para preencher este vácuo busca-se esoterismo, meditações, filosofias, espiritualismos, magias, fábulas e todo o tipo de êxtase baseado em crendices.


Diante do exposto, concluiu-se que das concepções divergentes a cerca da pós-modernidade, as correntes analisadas concordam com o fato de que tanto a incomunicabilidade com Deus em nome da razão, defendida pela Idade Moderna, quanto à busca desenfreada pelo prazer e a satisfação pessoal proveniente da ciência, não preencheram o vazio que existe no homem pela ausência de Deus. O ser humano está ainda mais fragilizado nesta na pós-modernidade.
Percebeu-se, ainda, que a idade contemporânea (seja como terceira fase da modernidade, ou na era pós-moderna) na tentativa de preencher o individuo, colocou-o numa confusão ainda maior quando lhe apresentou um deus frágil e manipulável. O homem como centro de todas as coisas, como uma fé em algo sagrado que atua a seu bel prazer, é como uma criança que tem uma fada madrinha e não vê limites para realizar os seus sonhos. Tornou-se insaciável, individualista e extremamente exibido.


Observou-se, também, que apesar de apegado ao sagrado, o homem pós-moderno está cada vez mais afastado do Deus bibliocêntrico, pois além das exposições anteriores, esta crença desproporcionalmente egocêntrica tem atingido a teologia contemporânea onde o ter está suplantando o ser.